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Eleições MT 2012
Domingo - 07 de Outubro de 2012 às 11:00

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Lucas teve projeto de lei aprovado no Parlamento Jovem (Foto: Assessoria/Câmara Federal)
Lucas teve projeto de lei aprovado no Parlamento Jovem (Foto: Assessoria/Câmara Federal)
Um adolescente de 16 anos se destaca em meio aos mais de 57 mil que irão às urnas pela primeira vez nas eleições municipais deste domingo (7), em Mato Grosso. Lucas Martins Bernardino, que mora em Arenápolis, cidade a 255 quilômetros de Cuiabá, fez história ao se tornar o primeiro mato-grossense a ter um projeto de lei aprovado no Parlamento Jovem da Câmara dos Deputados, em Brasília.

Lucas propôs que o Ministério da Educação (MEC) incentive as universidades do país a inserir na grade curricular dos cursos de licenciatura matérias específicas para o trabalho com alunos deficientes. Para formatar o projeto, o adolescente não precisou ir muito longe. Na sua escola, que conta com 466 alunos, ele percebeu a dificuldade no processo de aprendizagem de seis amigos surdos-mudos. “O meu projeto é oriundo do meu convívio diário com eles que têm muita dificuldade em aprender a ler. A minha ideia é formar os profissionais da educação quando eles ainda estão na universidade”, afirmou.

A vontade em abordar a questão da deficiência no ambiente escolar aumentou quando uma amiga dele precisou abandonar dois cursos universitários por falta de intérprete em Libras (Linguagem Brasileira de Sinais) dentro da sala de aula. Outra amiga do jovem, que também é deficiente auditiva, viaja todos os dias de Nortelândia até Arenápolis para estudar por conta do mesmo problema. “Cada região tem uma necessidade específica por profissionais capacitados para lidar com esse público. As universidades por serem autônomas devem entender qual é a demanda para ofertar essas matérias”, explicou.

Se por um lado, os alunos com deficiência têm dificuldades em aprender, do outro os responsáveis pelo ensino, na visão do adolescente, não sabem o que fazer dentro da sala de aula. “Os professores não estão capacitados. Quando entram na sala, muitos dizem: o que eu faço?”, afirmou.

Para o jovem, o maior problema é a falta de interação entre professor e o aluno que possui alguma deficiência. Para isso, no projeto de lei, o adolescente propôs que durante o estágio supervisionado dos professores em formação seja avaliado, justamente, o processo de interação em sala de aula. “O professor e o aluno precisam ter uma interação. Muitos não conseguem entender a matéria e quando se é deficiente é mais difícil ainda. No estágio, proponho que se tenha uma nota para medir se realmente o professor conseguiu administrar os problemas dentro de uma sala de aula com alunos deficientes”, salientou.

Lucas, ao lado de amigos com deficiência auditiva, professores e intérpretes (Foto: Arquivo Pessoal)
Lucas, ao lado de amigos com deficiência auditiva, professores e intérpretes (Foto: Arquivo Pessoal)

De acordo com a diretora da escola, Patrícia Joaquim Moraes Costa Brugnoli, hoje, a escola atende todos os alunos com deficiência auditiva. Mas no contexto geral, toda a escola precisa ser conscientizada em relação à inclusão desse tipo de aluno. "Acredito que nós temos que promover e provocar uma educação acessível. Todos nós temos que fazer a nossa parte. Na nossa escola, nós temos três professores aptos a lidar com os alunos que são deficientes auditivos. Mas vamos encaminhar mais professores a Cuiabá para se capacitarem”, afirmou.

Para integrar a 9ª edição do Parlamento Jovem da Câmara dos Deputados, Lucas enfrentou uma pesada seleção. Ao todo, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) recebeu 25 projetos e, destes, selecionou quatro. Como Mato Grosso tinha apenas uma vaga no parlamento, o Conselho Nacional de Secretários da Educação escolheu apenas um representante do estado.

Os professores não estão capacitados. Quando entram na sala, muitos dizem: o que eu faço?"
Lucas Bernardino,
estudante

Em Brasília, Lucas enfrentou mais uma disputa acirrada. Dos 78 projetos propostos de todo o país, apenas cinco poderiam ser aprovados. “O que valia era a defesa do seu projeto. Eu defendi o meu projeto quatro vezes. Na Comissão de Saúde e Segurança Pública o meu projeto foi o escolhido para ir direto à plenária. Nessa fase, a líder da minha comissão fez a defesa e acabei conquistando a aprovação”, disse. Agora, Lucas aguarda que seu projeto seja apadrinhado por algum deputado federal para que efetivamente seja discutido e, quem sabe, entre em vigor em todo o país.

Ser político
Ao G1, o adolescente afirmou que a experiência na Câmara Federal o fez repensar as próprias convicções. Ele não descarta, no futuro, se tornar um deputado federal. “A minha visão de mundo, da política e os meus conhecimentos ampliaram depois do parlamento. É um desejo meu seguir a carreira política. Se serei ou não, só o tempo poderá dizer”, afirmou.

Na véspera das eleições municipais, porém, ele disse que impera em sua geração um descrédito em relação à política brasileira. "Infelizmente, nós sabemos que a juventude não se interessa por política, nem quer saber. Eles votam porque o candidato deu alguma coisa a eles, apenas por isso", salientou.

Estudantes participantes do Parlamento Jovem Brasileiro assistem a palestra na Câmara Federal (Foto: Brenda Brandão/ G1)
Última turma do Parlamento Jovem Brasileiro
(Foto: Brenda Brandão/ G1)

Lucas mora com os avós em Arenápolis desde quando seus pais se separaram. Além de ter representado Mato Grosso no Parlamento Jovem, o adolescente é um dos responsáveis por recriar o Grêmio Estudantil que estava esquecido há anos na Escola Estadual Senador Filinto Muller. A organização mudou o ritmo de vida dos estudantes que agora contam com aulas de dança e teatro.

A avó do estudante, Josefina de Souza Bernardino, de 66 anos, enfatizou que o neto é o orgulho da família. Ela ficou surpresa quando soube que Lucas iria representar o estado na Câmara Federal. “É uma cidade tão pequena e com tanta gente que se inscreveu ele se superou e teve essa capacidade. Eu acho tudo isso muito legal para a vida dele”, disse.

O pai, um mecânico da cidade, contou ao G1 que até decidiu emancipar Lucas pela responsabilidade que ele tem desde muito cedo. Segundo ele, o filho nunca foi motivo de preocupação para a família. “Tudo que ele conquistou até aqui é por mérito dele. Ninguém precisou ficar falando para ele fazer nada. É realmente o nosso orgulho”, disse Silas Bernardino.

O adolescente está no 3º ano do Ensino Médio e disse que tem o sonho de cursar direito ou jornalismo em uma universidade pública.





Fonte: Do G1 MT

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